Arquivo para Junho, 2008

A técnica antiga e a técnica moderna segundo Heidegger (parte2: técnica moderna)

Posted in Uncategorized on Junho 26, 2008 by fcaneves

Freqüentei por um tempo a faculdade de filosofia. Os posts a seguir são sobre um tema interessantíssimo, a técnica, podendo ser lida também como tecnologia. As idéias que se seguem são do Heidegger, as palavras são extratos simplificados de uma prova que eu fiz sobre o texto A Questão da Técnica do referido filósofo.

– A essência da técnica como Com-posição (Ge-stell)

A técnica moderna transforma todos os seres em objetos de manipulação. A urgência da sociedade moderna em dominar a natureza proporcionou este relacionamento particular com a técnica. Transformadas em objetos de manipulação, as forças da natureza devem ser controladas e reguladas em prol do desenvolvimento da humanidade. A natureza então passa a se constituir num conjunto de meios para o consumo do homem, num manancial de recursos naturais para serem explorados. Numa conjunção de forças que devem ser dirigidas e otimizadas. A natureza passa a estar em estado de prontidão para ser explorada. Um recurso natural – pois tudo na natureza passa a ser visto como recurso natural, inclusive o homem – fica disponível para ser manipulado, transformado e distribuído numa cadeia de atividades que acaba compondo uma grande teia logística a serviço da humanidade. Todos os seres passam a fazer parte dessa com-posição e se transformam em meios para um fim material, devendo ser adequadamente controlados e otimizados. A humanidade passa a constituir e a comandar o ser, ao preço de, mesmo na posição de capataz da natureza, tornar-se um mero recurso de si mesma.

Essa maneira de revelar, que coloca os recursos naturais em reserva para serem manipulados é a essência da técnica moderna, a Ge-stell, a com-posição de recursos disponíveis. Porém, a revelação da Ge-stell também produz ocultamentos no ser. Esconde o revelar do ser no sentido de poiesis. Portanto, a essência da técnica moderna se dá à custa da perda de essência do ser. De todo ser, a humanidade, por exemplo, é um ser.

O ser revelado sob o âmbito da Ge-stell substitui o ser desvelado pela pre-sença da alétheia.

A técnica antiga e a técnica moderna segundo Heidegger (parte 1: Técnica Antiga)

Posted in Uncategorized on Junho 26, 2008 by fcaneves

Freqüentei por um tempo a faculdade de filosofia. Os posts a seguir são sobre um tema interessantíssimo, a técnica, podendo ser lida também como tecnologia. As idéias que se seguem são do Heidegger, as palavras são extratos simplificados de uma prova que eu fiz sobre o texto A Questão da Técnica do referido filósofo.

Técnica antiga: Alétheia, poiesis e techné:

Alétheia (verdade) em seu sentido original grego significa revelar-se, desvelar-se. Esse sentido de verdade pressupõe uma liberdade do ser para o ato de se auto-revelar. Nessa concepção, a alétheia é a liberdade do desabrochar dos seres que os deixa tornarem-se o que são, que os deixa se desvelarem através de sua essência que se revela.

Esse deixar o ser se revelar, se abrir, traz à tona o ser tal como é em si mesmo. Esse trazer-à-tona à presença, em ato, é chamado pelos gregos de poiesis, que é uma pro-dução, um surgir e elevar-se por si mesmo, um trazer à tona da coisa que termina com o seu total desvelamento.

Para Heidegger, a techné (técnica) é uma forma de revelação. A techné é um fazer que também é um conhecer que é também um saber.

Um artesão na Grécia Antiga, por exemplo, participa na poiesis de sua cerâmica. Ele se confronta com a realidade que até então é confusa, difusa, porque ainda não se revelou, porque ainda está escondida. Então, o artesão, pelas suas habilidades luta contra a léthe (esquecimento) e cria condições que permite ao ser se desvelar, se dar à alétheia.

Depois desse processo, o ser passa a estar disposto de maneira diferente, pois ele já foi revelado pelo trabalho “poiético” do artista. Na techné antiga, pela sua habilidade o artesão redispõe os vários elementos que já estavam pré-sentes na cerâmica dando lhes um significado novo. Nessa disposição nova emerge, se torna presente, através da poiesis, o trabalho artesanal. Todo juntar-se através da poiesis faz um trabalho novo emergir à pres-ença. E nesse processo todo do trabalho do artesão há uma inter-relação entre ele e a sua massa de trabalho sem uma relação de causa e efeito.

No final das contas, o artesão teve de lutar para não impor algo ao ser, mas para permitir que ele se revelasse “poieticamente”. A técnica antiga é uma forma de trazer à tona que dá forma ao tornar a ser dos seres.

Chiclete

Posted in Uncategorized on Junho 23, 2008 by fcaneves

O conto de ficcção abaixo é baseado numa entrvista que ouvi na rádio há cerca de 10 anos. Uma entrevista de verdade. Uma estrela em ascensão da música brasileira falava com orgulho de como teve inspiração para compor determinada música. Ele estava no carro, na zona sul do Rio, com outra estrela em ascensão da música brasileira.

Eu acredito que às vezes pessoas decentes são simplesmente infelizes.

Chiclete

Ele andava pela rua. O relógio marcava quatro da tarde. O dia de verão trazia aquela sensação estranha de melado no corpo, mas ele não ligava. Nem podia dar mínima, era uma criatura muito nova, tina apenas três anos. O bafo quente de um dia de verão, insuportável, dava lugar a uma ventania de chacoalhar tudo na cidade, árvores desfolhando. Vinha chuva por ali. No colo de sua mãe ele sentiu arrepios, se encolheu, se retorceu.

De repente, sentiu, de maneira como nunca havia sentido antes, a força da natureza: “TRUUUUM”. Disse à sua mãe: “TROOOVÃO!”.

O transito estava piorando, aqueles outros dois estavam entediados. Não havia motivos para eles estarem assim, mas eles estavam. Acabavam de sair do estúdio. Gente de fora. Custo alto. Atraso da banda. Mas mesmo assim o dia, que começou ás 5 da manhã, fora produtivo. A gravação saiu. Agora o computador preto, bem melhor que o branco, ia dar uma forma nova forma àquele som. Inédita, esperavam. Mas estavam entediados. Nem estavam escutando nada.

“TROOOVÃO!”.

“O que foi isso?”.

“O que é isso?”.

O menino então, no colo da mãe, lhes oferece o chiclete. “Três por cinco”

O sinal abre. O carro arranca. Os dois estão diferentes. Se entreolham.

“Você ouviu aquilo?”

“Tá brincando? Que sonoridade. Eu nunca ouvi dito daquele jeito”.

Um pegou o gravadorzinho do porta-luvas e repetiu as mesmas notas, a mesma frase.
Uma palavra modulando de cima para baixo e depois para cima normalmente.

“Isso vai dar samba.”

“Bossa-nova, olha só aqui esta idéia”

Os dois repentinamente começaram a assobiar balançando a cabeça para frente e para trás. Esperavam não esquecer daquilo jamais.

O Obama representa o começo do século XXI

Posted in Uncategorized on Junho 22, 2008 by fcaneves

Para mim é um júbilo saber que ele já é o candidato democrata à Presidência dos EUA.

Sob o ponto de vista cosmopolita, torço muito por ele. Na minha opinião, não existe mais essa coisa de interesse nacional de país contra país, não existem mais ideologias antagônicas entre Estados. O que há são apenas antagonismos comerciais e de grupos que são supra-nacionais ou pós-nacionais que representam visões para o futuro da humanidade — e não para países — diferentes. Antagonismos que se assemelham em qualquer parte da aldeia global que é o planeta Terra no século XXI. Aí que o Obama é um dos meus.

Simbolicamente, a eleição dele muda muita coisa. Desmoraliza a direita europeía que é racista, a esquerda latino-americana que é populista, a direita israelense que é ultra-racista, por exemplo. Aumenta a auto-estima da população negra de todo o mundo e em particular um continente que foi humilhado no século XX, enfim, ….

Representa o começo do século XXI.

O Obama é um cara que representa a África — pai queniano — a Ásia — morou na Indonésia — a Europa — mãe branca — a América — cresceu nos EUA –, forçando um pouco até a Oceania, pois ele é do Havaii, lugar que culturalmente é muito ligado a Oceania. Ele é o cosmopolitismo e a globalização encarnados.

A candidatura e a possível eleição do Obama nos EUA enfraquece mais o já enfraquecido conceito de nação, que tende a desaparecer de qualquer maneira com a globalização do comércio e com a verdadeira revolução informacional-tecnológica que vivemos. Num país originalmente WASP um cara que nem descendente total de europeu é pode — e vai — ser eleito presidente. Um cara que é cristão de mentirinha, que não liga para a religião de verdade, e que teve ancestrais muçulmanos. Isso tudo para mim é muito bonito.

Não penso mais em termos nacionais, isso aliás graças também à crítica que veio do próprio pensamento desconstrutuvista e iconoclasta da modernidade européia.

O que eu quero dizer é somos antes de tudo membros da espécie humana. E ficou provada mais uma vez a capacidade de auto-crítica, de auto-superação e de evolução da espécie humana. Seja em que “Estado” for. Seja por elementos ultra-inteligentes situados num pedaço de terra também conhecido por Europa com o desconstrutivismo da cultura iluminusta, seja por elementos mais numerosos e com menor poder intelectual situados num pedaço de terra também conhecido por EUA com o desconstrutivismo prático de uma cultura nacionalista também iluminista.

Que venha o século XXI, época em todos seremos universais !!!