Acossado, primeiro filme do Goddard, e Notas do Subsolo, um pequeno livro de Dostoiévski, são duas obras-primas modernas. Elas têm como protagonistas o que podemos chamar do homem moderno, ou seja, o homem-indivíduo que tem liberdade para fazer o próprio destino. Ambos escolhem ser niilistas.
Nihil significa ´nada´ em latim. Podemos dizer que niilista é quem não acredita que existem valores, sejam eles morais, epistemológicos ou existenciais. Mais importante, niilista é quem pensa que não existe nada de transcedental que possa fundamentar qualquer coisa na vida. Nem Deus, nem nada. Esta atitude leva a crer que nada é válido ou é verdadeiro ou faz sentido ou tem importância. Tudo na vida tanto faz como tanto fez.
Tem o niilismo moral, que considera que não existe certo ou errado e que toda a ação humana dá na mesma em termos morais. Como em toda sociedade existem valores morais vigentes, o niilista deste tipo tem a tentação de querer contrariar os valores vigentes.
Tem o niilismo existencial, para que a vida é um absurdo sem sentido. No segundo em que você pode mudar a sua vida e escolher entre o A e o B, mesmo com desdobramentos radicalmente diferentes, no final tudo dá no mesmo.
Tem o niilismo epistemológico que acredita que não existem verdades no conhecimento humano ou na ciência. Nada prova nada.
E tem o niilismo budista de querer desejar não sentir nada para se destacar do mundo.
Voltando ao que interessa. Eu assisti ao filme bem depois que li o livro. Relacionei de imediato as duas obras. Lembro-me que pensei: O personagem Michel é bem mais leve que o homem do subsolo de Dostoiévski.
Um niilista o personagem de Goddard, sem dúvida. Lembro-me de uma piada deiciosa: ele diz à americana que o acompanha por todo o filme: “eu quero fazer amor com você porque você é bonita”. “Mas eu não sou bonita”. “Então eu quero fazer amor porque você é feia”.
Michel também é um pilantra de marca maior, para ele não existe certo ou errado. Para ele não é errado matar um policial ou roubar dinheiro da ex-namorada. Mas também é um personagem simpático, pois é um homem que não tem ressentimentos do passado, não tem raiva de ninguém, um homem que não pensa no futuro, um homem observador de tudo que quer viver ao máximo o presente. Para ele tudo é permitido. Ele não tem medo da morte, muito pelo contrário, tira sarro dela.
Michel largou o emprego para se tornar um vagabundo. Ao contrário, o protagonista de Dostoiévski sentia o sádico prazer de maltratar as pessoas num empreguinho de repartição pública.
O niilismo retratado por Dostoiévski em Notas do Subsolo é muito mais pesado. É de uma negatividade sinistra. O protagonista — não me lembro do nome — tem um um prazer masoquista em se diminuir e em ser humilhado pelos colegas, um prazer que se torna perversão quando ele se encontra com uma prostituta, a única pessoa que realmente o quer ver bem e que se apaixona por ele.
O niilismo do personagem de Dostoiévski vem da crença do tanto faz como tanto fez. Ele se acha mais inteligente justamente por se considerar niilista. O niilismo vem do fato dele querer — e achar bonito — se depreciar por se achar superior. Vem da descrença na vida pequeno burquesa estável. O personagem prefere ficar mal do que ficar mais-ou-menos.
O cara tem uma doença neurótica na minha opinião.
No final do livro, para mim um dos finais mais memoráveis da literatura, o protagonista aniquila a derradeira possibilidade de felizidade própria. Haja niilismo para achar que tanto faz como tanto fez. Notas do Subsolo é uma obra doentia. Brilhante, mas doentia. E cumpriu com o objetivo de Dostoiévski de criticar os ideais românticos iluministas de ode à razão.
Eu não sou niilista. Acho ridículo o que pode se chegar com ele. Para ficar no exemplo das obras acima, acho erradíssimo matar um policial e imbecil maltratar quem te quer bem. Se a existência humana perdeu um certo sendito com a “morte de Deus”, que a falta de transcedental seja uma força criadora ou criativa para o homem. Cabe a ele dar outro sentido a sua vida, cada um que invente o seu próprio.