Outro dia eu recebi uma crítica. Uma amiga me disse: “peguei uma contradição no seu blog !!!”. Eu respondi: “Só uma?” Senti-me depreciado, não por ela ter percebido uma contradição, me senti depreciado por ela não ter encontrado ou percebido mais.
Não quero defender o raciocínio que busca a incoerência como um fim. Todo raciocínio deve tentar ser coerente. Acredito que ninguém deve pensar com o objetivo de se contradizer. Não acho bonita a desrazão, ou o máximo falar que a bola é quadrada. Isso tudo é maluquice, não é isso.
Reconheço que do ponto-de-vista prático não se pode cair em contradição. Nos Think Thanks políticos, numa empresa capitalista, numa assembléia, em quase tudo, cada ser pensante é responsável por defenter um interesse, e cada um tem que exercer o seu papel. A pessoa tem que ser coerente para ser confiável perante aos seus pares e também porque a coerência é em prol da defesa de um interesse comum a um grupo e/ou antagônico a outro.
No pensamento jurídico é a mesma coisa. Um juíz tem que respeitar uma norma que já está escrita, que já foi definida. Não há espaço para a contradição, ainda bem que é assim.
E eu já me contradisse. Como é que eu me proponho a escrever um texto defendendo a contradição defendendo a não-contradição? Mas este é exatamente o ponto. Nada na vida é absoluto.
O problema de encarar a contradição como um pecado mortal é que esta postura gera o medo de se contradizer. O problema do medo de se contradizer é que, no final das contas, se você pensar nele, você não faz mais nada.
Penso que pelo fato da imensa maioria das vezes um pensamento nunca ser desinteressado é que vem o compromisso com a coerência. Consequentemente, talvez daí tenha surgido a idéia da contradição como um pecado mortal a ser evitado a todo custo.
Agora, e quando o pensamento é desinteressado, ou melhor, descompromissado? E quando não há o comprometimento com a defesa de um ponto-de-vista? E quando o objetivo é apenas investigar aspectos da realidade em busca de se chegar a um entendimento mais satisfatório dela? É isto o que eu me proponho aqui no blog. Qual seria o problema de se contradizer? Nenhum.
A realidade é complexa. Dentro da idéia que fazemos dela nada está totalmente certo ou errado, porque a própria percepção humana é limitada. Quando a percepção da realidade de um indivíduo se aprimora entrando em negação com a percepção anterior, não só não há problema como é desejável se contradizer.
Dentro desta postura, por exemplo, se eu já falei que o Obama é bonito, me sinto com todo o direito de dizer que ele é feio se um dia eu chegar a esta conclusão. E certamente não vejo motivo nenhum para que o meu texto tenha menos credibilidade por esta mudança de postura. Já que a busca é por um entendimento melhor da realidade. Se uma pessoa vê que está equivocada, ela tem que se manter equivocada em nome da coerência? Claro que não.
Vejo como algo lindo uma contradição honesta. Quando a pessoa pensa e, na melhor das boas intenções, … se contradiz. Nenhuma afirmação deve ter o peso de um compromisso quando seu autor não lhe dá mais valor. Ele tem que abandoná-la. Ainda mais quando ele já possui uma outra afirmação.
Só o imbecil não se contradiz.