Arquivo para Setembro, 2008

A filosofia e a ciência

Posted in Uncategorized on Setembro 24, 2008 by fcaneves

O nome da coluna é Filosoflávio. O meu nome é Flávio. Mas eu não sou filósofo. Filósofos são poucos, pouquíssimos. Filósofo é Platão e mais uma dúzia, no máximo.

Eu sou apenas um apaixonado pela Filosofia. No meu ritmo, com a minha limitada inteligência, sem compromisso, gosto de ler filosofia, e gosto de pensar sobre os assuntos mais essenciais. Sobre as causas primeiras, como e por que as coisas são do jeito que são. Temas filosóficos. Pela própria etimologia do nome, a filosofia é um amor a sabedoria, portanto, mesmo não sendo sábio, por amor, eu posso especular.

Penso que todo o mundo pode fazer isso. Tomo a iniciativa de escrever agora sobre um tema muito interessante e que normalmente gera muita confusão em quem se interessa por filosofia.

Quais seriam as semelhanças e as diferenças entre a filosofia e a ciência?

Na antiguidade, a filosofia se confundia com a ciência. Os filósofos eram cientistas. Por que a filosofia é tão semelhante com a ciência a ponto de já ter sido confundida com ela? A filosofia se assemelha com a ciência justamente por ser racional e por não acreditar em nada por boa fé.

A ciência, no entanto, é mais metódica que a filosofia. O cientista já sabe aonde quer chegar, ainda no ponto de partida de sua investigação. O cientista vai sempre à sua experiência com uma idéia, com uma hipótese pré-concebida. A ciência de certa maneira já possui os seus objetos de investigação de antemão. Cabe a ela fazer sínteses de conhecimento experimentando e desvelando as relações de causa e efeito que estes objetos podem lhe dar.

A ciência, por exemplo, formaliza a causalidade do fato da pedra esquentar quando recebe o calor do sol em sua face. Diante deste fato, que passa a ser cientificamente formulado e comprovado, a ciência proporciona usos para o calor do sol, ou outras maneiras de se produzir calor, até para se substituir o calor do sol.

Está aí uma das grandes conquistas da ciência: ela conseguiu domar a natureza. A ciência transformou o que antes metia medo e era causa de morte para o homem – uma cachoeira de rio, por exemplo – em um recurso natural para se produzir energia elétrica, o que é muito bom.

Disso tudo vem uma característica distintiva da ciência com a filosofia. A ciência acaba sempre no final das contas sendo prática, acaba sempre servindo a um propósito que lhe é exterior. A melhoria da vida humana, por exemplo.

Ao contrário das ciências, a filosofia opera através de conceitos traduzidos na linguagem, seja ela escrita ou falada. Este fato faz da filosofia por um lado superior, por outro lado inferior à ciência. Os próprios conceitos pelos quais a filosofia opera já são criações humanas, e por mais racionais que sejam, nunca estão respaldados por uma prova empírica de existência, conseqüentemente nunca estamos certos de que eles estejam certos. Daí vem uma certa anarquia, ou uma certa falta de princípios na filosofia, o que torna as ciências mais confiáveis e limitadas do que ela, mesmo que o rigor lógico-formal da filosofia seja grande.

Contrariando o grande filósofo Kant, não penso que a filosofia deva conquistar o status de ciência. Kant com a sua Crítica da Razão Pura queria encontrar fundamentos para que os assuntos de filosofia pudessem ser tão criteriosamente analisados quanto os de ciência. Ele queria dar à filosofia o mesmo grau de austeridade que a ciência.

Na realidade, a austeridade ou a infalibilidade muito pouco valem na filosofia. Penso que a filosofia deve ser uma aventura. Em filosofia, muito mais valorosa que uma verdade empírica é a verdade formal do pensamento com a sua tradução escrita ou verbal. O que vale é a fidelidade com que o filósofo consegue comunicar o que pensa.

No final das contas, a filosofia se diferencia da ciência basicamente por dois aspectos: porque é um fim em si mesma e porque não limita o seu campo de investigação para chegar a um saber determinado. A ciência só é tão bem sucedida por causa dos limites que se impôs. Seria um absurdo a filosofia se impor limites, porque o que ela quer é exatamente investigar o que de uma forma ou de outra não pode ser limitado.

A culpa é do Regan

Posted in Uncategorized on Setembro 6, 2008 by fcaneves

A Rússia só é um Estado beligerante hoje porque o Ronald Regan resolveu humilha-lá, e não ajudá-la, depois do colapso do comunismo. A ponto do Gorbachov hoje ser esquecido na própria Rússia. A ponto de haver um forte sentimento anti-americano lá.

O Regan teve muitos méritos ao forçar o esgotamento econômico da Rússica comunista. O colapso do comunismo deu um fim à Guerra Fria que pautou as relacões internacionais depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas ele errou feio no final. Imaginem se fosse feito algo inspirado no Plano Marshall para ajudar a Rússia. Teria havido uma integração muito maior desta com o Ocidente. Teria havido uma renovação no establishment político de Moscou.

Ocorre que depois do grande evento histório todo o Ocidente deu as costas. E mesmo com instituições capitalistas apenas incipientes, basicamente com o dinheiro do petróleo e do minério de ferro, a Rússia é agora um Estado forte e rico, mas não exatamente internacionalista, mas não exatamente aberto para negócios.

Ao contrário dos EUA e, de modo geral, todo o mundo ocidental — até o Brasil — que na prática são governados por lobistas que representam interesses econômicos privados, a Rússia ainda não é governada por interesses meramente capitalistas. Antes fosse, porque aí haveria uma integração bonita com o ocidente e todo mundo ficaria feliz. Mas não, lá quem manda é o pessoal da velha guarda, proveniente do antigo Partido Comunista e da KGB, que ainda pensa em termos nacionalistas. Esse pessoal destoa e pensa diferente dos líderes ocidentais. Esse pessoal não respeita investidor extrangeiro, esse pessoal manda prender o empresário russo que incomoda.

Com a invasão da Geórgia, que, diga-se de passagem, mordeu a isca russa direitinho, abre-se um precedente para se pensar que a Rússia quer se tornar uma potência imperial novamente. Pode ser que a Rússia queira uma revanche da Guerra Fria. Pode ser que a Rússia — por que não? — queira ter a Europa como satélite.

Morreu recentemente na Inglaterra um agente russo duplo, originalmente da KGB, envenenado. O governo inglês acusou a Rússia da morte. A crise acabou quando um submarino nuclear russo — por mero acaso? — costeou o litoral da Inglaterra.

Para o que aconteceu na Geórgia, não existe reação ideal dos EUA. Se eles fizerem vista grossa vão ser tidos como fracos, e lembraria a indiferença da Europa quando a Alemanha de Hitler começou a se expandir antes da Segunda Guerra.

Se os EUA reagirem, eles dão motivo para o surgimento de um novo antagonismo entre potências militares e, consequentemente, de uma nova Guerra Fria. Aposto que é isto o que a Rússia deseja. Com a diferença de que hoje os EUA já não são a economia hegemônica que já foram.

Muito interessante o que está por vir.