A Rússia só é um Estado beligerante hoje porque o Ronald Regan resolveu humilha-lá, e não ajudá-la, depois do colapso do comunismo. A ponto do Gorbachov hoje ser esquecido na própria Rússia. A ponto de haver um forte sentimento anti-americano lá.
O Regan teve muitos méritos ao forçar o esgotamento econômico da Rússica comunista. O colapso do comunismo deu um fim à Guerra Fria que pautou as relacões internacionais depois da Segunda Guerra Mundial.
Mas ele errou feio no final. Imaginem se fosse feito algo inspirado no Plano Marshall para ajudar a Rússia. Teria havido uma integração muito maior desta com o Ocidente. Teria havido uma renovação no establishment político de Moscou.
Ocorre que depois do grande evento histório todo o Ocidente deu as costas. E mesmo com instituições capitalistas apenas incipientes, basicamente com o dinheiro do petróleo e do minério de ferro, a Rússia é agora um Estado forte e rico, mas não exatamente internacionalista, mas não exatamente aberto para negócios.
Ao contrário dos EUA e, de modo geral, todo o mundo ocidental — até o Brasil — que na prática são governados por lobistas que representam interesses econômicos privados, a Rússia ainda não é governada por interesses meramente capitalistas. Antes fosse, porque aí haveria uma integração bonita com o ocidente e todo mundo ficaria feliz. Mas não, lá quem manda é o pessoal da velha guarda, proveniente do antigo Partido Comunista e da KGB, que ainda pensa em termos nacionalistas. Esse pessoal destoa e pensa diferente dos líderes ocidentais. Esse pessoal não respeita investidor extrangeiro, esse pessoal manda prender o empresário russo que incomoda.
Com a invasão da Geórgia, que, diga-se de passagem, mordeu a isca russa direitinho, abre-se um precedente para se pensar que a Rússia quer se tornar uma potência imperial novamente. Pode ser que a Rússia queira uma revanche da Guerra Fria. Pode ser que a Rússia — por que não? — queira ter a Europa como satélite.
Morreu recentemente na Inglaterra um agente russo duplo, originalmente da KGB, envenenado. O governo inglês acusou a Rússia da morte. A crise acabou quando um submarino nuclear russo — por mero acaso? — costeou o litoral da Inglaterra.
Para o que aconteceu na Geórgia, não existe reação ideal dos EUA. Se eles fizerem vista grossa vão ser tidos como fracos, e lembraria a indiferença da Europa quando a Alemanha de Hitler começou a se expandir antes da Segunda Guerra.
Se os EUA reagirem, eles dão motivo para o surgimento de um novo antagonismo entre potências militares e, consequentemente, de uma nova Guerra Fria. Aposto que é isto o que a Rússia deseja. Com a diferença de que hoje os EUA já não são a economia hegemônica que já foram.
Muito interessante o que está por vir.