A culpa é do Regan

Posted in Uncategorized on Setembro 6, 2008 by fcaneves

A Rússia só é um Estado beligerante hoje porque o Ronald Regan resolveu humilha-lá, e não ajudá-la, depois do colapso do comunismo. A ponto do Gorbachov hoje ser esquecido na própria Rússia. A ponto de haver um forte sentimento anti-americano lá.

O Regan teve muitos méritos ao forçar o esgotamento econômico da Rússica comunista. O colapso do comunismo deu um fim à Guerra Fria que pautou as relacões internacionais depois da Segunda Guerra Mundial.

Mas ele errou feio no final. Imaginem se fosse feito algo inspirado no Plano Marshall para ajudar a Rússia. Teria havido uma integração muito maior desta com o Ocidente. Teria havido uma renovação no establishment político de Moscou.

Ocorre que depois do grande evento histório todo o Ocidente deu as costas. E mesmo com instituições capitalistas apenas incipientes, basicamente com o dinheiro do petróleo e do minério de ferro, a Rússia é agora um Estado forte e rico, mas não exatamente internacionalista, mas não exatamente aberto para negócios.

Ao contrário dos EUA e, de modo geral, todo o mundo ocidental — até o Brasil — que na prática são governados por lobistas que representam interesses econômicos privados, a Rússia ainda não é governada por interesses meramente capitalistas. Antes fosse, porque aí haveria uma integração bonita com o ocidente e todo mundo ficaria feliz. Mas não, lá quem manda é o pessoal da velha guarda, proveniente do antigo Partido Comunista e da KGB, que ainda pensa em termos nacionalistas. Esse pessoal destoa e pensa diferente dos líderes ocidentais. Esse pessoal não respeita investidor extrangeiro, esse pessoal manda prender o empresário russo que incomoda.

Com a invasão da Geórgia, que, diga-se de passagem, mordeu a isca russa direitinho, abre-se um precedente para se pensar que a Rússia quer se tornar uma potência imperial novamente. Pode ser que a Rússia queira uma revanche da Guerra Fria. Pode ser que a Rússia — por que não? — queira ter a Europa como satélite.

Morreu recentemente na Inglaterra um agente russo duplo, originalmente da KGB, envenenado. O governo inglês acusou a Rússia da morte. A crise acabou quando um submarino nuclear russo — por mero acaso? — costeou o litoral da Inglaterra.

Para o que aconteceu na Geórgia, não existe reação ideal dos EUA. Se eles fizerem vista grossa vão ser tidos como fracos, e lembraria a indiferença da Europa quando a Alemanha de Hitler começou a se expandir antes da Segunda Guerra.

Se os EUA reagirem, eles dão motivo para o surgimento de um novo antagonismo entre potências militares e, consequentemente, de uma nova Guerra Fria. Aposto que é isto o que a Rússia deseja. Com a diferença de que hoje os EUA já não são a economia hegemônica que já foram.

Muito interessante o que está por vir.

Duas Caras

Posted in Uncategorized on Agosto 26, 2008 by fcaneves

Ele era a mesma pessoa. A mesma pessoa com duas caras. Uma cara era amigável com qualquer outra cara que não fosse a dele. Cara de anjo, cara de mulher, cara de pau, cara de peixe morto, cara de tacho.

A outra cara era indiferente. Como qualquer outra que não fosse a dele.

O cara da cara amigável morreu. Não aguentou a barra. Morreu porque fez muita cagada. Cansou de pagar caro por aquela cara, que mesmo assim lhe era cara.

A cara de indiferença continua viva.

Mas o cara se arrependeu de ter matado a sua outra cara. Ele viu que esta cara era rara. E por isto ela lhe dava um gosto de gala, na cara. Era a cara com o gosto de bom gosto.

Com a outra que está viva, a vida tem um gosto ralo de ralo. Um sabor mala de bala. Ele agora se sente um rato. Na sua cabeça isto é um fato. Que chato. O que ele pensava que era o seu melhor é o seu pior.

Agora o cara está careca. Na sua vida ele escarra. O seu espírito é um esgoto. Ele Vive de pirraça com os outros. Está sempre puto. Tem cara de surto.

Mas depois a vida mudou de novo. Depois do presente veio o futuro. E o cara mudou novamente. A cara amigável voltou. Agora para ficar. Para amar. Para cagar. A cara que ele ficava com a meninada da rua. De limonada, de marmelada.

E viva a fênix, cujo verdadeiro nome sempre foi Re-nato.

As putas na arte do século 20

Posted in Uncategorized on Agosto 21, 2008 by fcaneves

O que Pablo Picasso e James Joyce têm em comum? Um é o maior pintor do século 20. O outro, o maior escritor. Os dois, estranhamente, são católicos. Mas a semelhança de que eu quero falar é outra. Ambos foram criados no meio de e profundamente marcados pelas putas. E elas são importantíssimas nas obras dos dois.

Os dois artistas foram jovens precoces, tanto pelo aspecto intelectual quanto pelo sexual. E ambos procuraram os bordéis ainda garotos, entre outras razões, para se educarem.

Certamente é diferente a relação de uma prostituta com um menino jovem se comparada à relação dela com um homem adulto. Seguramente podemos falar que as prostitutas também foram as mães de Picasso e Joyce. E que mães elas devem ter sido…

Imagino que a convivência com as putas foi um contraste perfeito na formação dos dois, que proporcionou-lhes uma visão mais plena da vida. Elas contrabalançaram Picasso da convivência com a aristocracia espanhola e Joyce da convivência com os jesuítas que o educaram.

Fato engraçado: Quando Joyce, um menino que pecou à vera para a idade, se confessou ainda garoto com o padre jesuíta falando de suas aventuras, este viu potencial nele para se tornar um padre também.

O erotismo permeou a carreira e a vida de Picasso — um vulção sexual — até o final. Tem um desenho feito pelo Picasso já nos 90 que é um auto-retrato dele garoto entre três putas gloriosamente peladas e os chamados Hidalgos espanhóis.

Dentro da pletora de estilos que ele inventou e desenvolveu, talvez seu quadro mais genial e representativo de transição é o Les Demoseilles d´Avingnon, as damas de uma das ruas de prostituição da Barcelona da época. Das cinco prostitutas, duas possuem faces que lembram máscaras ibéricas e africanas, novos interesses de Picasso de então, que são bem distintas das faces das outras três.

O que falar da relação da obra de Joyce com as putas? Os bordéis de Dublin estão em todos os seus livros, nos momentos mais importantes. A cena do bordel é sempre crucial. Para ficar em Ulisses, a cena dos bordéis é a transição de uma imagética objetiva na forma para uma imagética surrelaista em que o real e a fantasia passam a se confundir.

O que pensar de tudo isso? Eu agradeço as putas pelo grande serviço prestado à arte moderna.

A literatura é neutra

Posted in Uncategorized on Agosto 16, 2008 by fcaneves

Num livro do filósofo romeno Cioran tem um frase de Samuel Beckett, dramaturgo irlandês, sobre seu compatriota, o escritor James Joyce:

Ele não se revoltava nunca, era indiferente, aceitava tudo. Para ele, não havia nenhuma diferença entre a queda de uma bomba e a queda de uma folha…

Que frase maravilhosa…

Joyce é o maior expoente da literatura moderna. Um homem que fazia o que queria com as palavras, um homem que de tanto dominar a língua inglesa, a língua do colonizador da Irlanda por sinal, resolveu explodí-la subvertento todas as suas regras mais íntimas, fazendo uma espécie fusão nuclear com as palavras, criando uma bomba atômica de significados com elas.

Não interpreto a frase como diminuitiva do Joyce, cuja obra é abrangente e universal ao máximo. Joyce se propõe a falar de tudo e de todos, da maneira mais clara e ao mesmo tempo polissêmica possível. Em seus livros, Dublin é todo o mundo. E cada um é toda a humanidade. Até o cocô da galinha tem uma significação universal profunda na obra do Joyce. Não é à toa que o nome do personagem principal de Finnegans Wake é HCE (Here Comes Everybody).

O fato é que para quem tem a pretensão de retratar a universalidade e a pluralidade do mundo, não existe outra maneira de se posicionar a não ser como observador, sem tomar partido, sem sentir as dores do outro.

Aliás, existe outra maneira de se fazer literatura? Penso que não.

O objetivo da literatura não é ser contra ou a favor de nada. Ela não tem que ter mensagem social nenhuma, não tem que ter convecimento ou ser objeto de desejo. Para isto temos a propaganda, a panfletagem, a pornografia… Podemos escrever um texto de ciências sociais sobre as injustiças do mundo. Mas tudo isso é diferente da literatura.

A literatura não deve ter outro objetivo além de proposcionar ao leitor prazer estético e a epifania de algum aspecto essencial da realidade.

O velho de volta na política internacional?

Posted in Uncategorized on Agosto 11, 2008 by fcaneves

Penso que o ataque da Rússia contra a Geórgia só fortalece a hipótese de que eu falei dois posts atrás sobre a formação de uma aliança político-militar sino-russa com uma área de influência muito além da China e da Rússia.

Ao que parece, o ataque já deixou de ser uma mera ação para a defesa dos rebeldes pró Rússia da Ossétia do Sul. Talvez o objetivo russo com a ação seja a conquista de toda a Geórgia, que tem passagem para o Mar Negro e faz fronteira com a Turquia, que é porta de entrada para a Europa e Oriente Médio, além de ser uma grande aliada dos EUA.

Os EUA pressionam a União Européia a aceitar a Turquia na zona de integração. A UE faz muita resistência, cozinha em banho-maria. Talvez agora seja tarde. Talvez a Turquia se veja forçada e tenha mais a ganhar economicamente fazendo uma aliança com a Rússia e China. O que criaria um problema seríssimo com e para os EUA.

Os EUA e a Europa estão dando apoio diplomático à Geórgia, os EUA também estão dando apoio logístico, fazendo neste momento o transporte de tropas georgianas do Iraque para a zona de guerra.

Bem interessante o que está por vir. Será que os EUA de alguma maneira vão engrossar a reação? O que está em jogo vale muito.

Por mais que a haja uma fortíssima integração de interesses econômicos de atores meramente capitalistas — e, portanto, sem nacionalidade — que têm poder em países e que tendem até a invalidar a importância de Estados-Nação, talvez esta força pós-nacional ainda não seja forte o suficiente para mudar certos modos de agir e de pensar do passado.

Talvez o ressentimento histórico de alguns prevaleça e crie contra os EUA, à moda antiga, uma zona de conflito seríssima na Europa e Oriente Médio em busca de … desforra.

Em defesa da contradição

Posted in Uncategorized on Agosto 7, 2008 by fcaneves

Outro dia eu recebi uma crítica. Uma amiga me disse: “peguei uma contradição no seu blog !!!”. Eu respondi: “Só uma?” Senti-me depreciado, não por ela ter percebido uma contradição, me senti depreciado por ela não ter encontrado ou percebido mais.

Não quero defender o raciocínio que busca a incoerência como um fim. Todo raciocínio deve tentar ser coerente. Acredito que ninguém deve pensar com o objetivo de se contradizer. Não acho bonita a desrazão, ou o máximo falar que a bola é quadrada. Isso tudo é maluquice, não é isso.

Reconheço que do ponto-de-vista prático não se pode cair em contradição. Nos Think Thanks políticos, numa empresa capitalista, numa assembléia, em quase tudo, cada ser pensante é responsável por defenter um interesse, e cada um tem que exercer o seu papel. A pessoa tem que ser coerente para ser confiável perante aos seus pares e também porque a coerência é em prol da defesa de um interesse comum a um grupo e/ou antagônico a outro.

No pensamento jurídico é a mesma coisa. Um juíz tem que respeitar uma norma que já está escrita, que já foi definida. Não há espaço para a contradição, ainda bem que é assim.

E eu já me contradisse. Como é que eu me proponho a escrever um texto defendendo a contradição defendendo a não-contradição? Mas este é exatamente o ponto. Nada na vida é absoluto.

O problema de encarar a contradição como um pecado mortal é que esta postura gera o medo de se contradizer. O problema do medo de se contradizer é que, no final das contas, se você pensar nele, você não faz mais nada.

Penso que pelo fato da imensa maioria das vezes um pensamento nunca ser desinteressado é que vem o compromisso com a coerência. Consequentemente, talvez daí tenha surgido a idéia da contradição como um pecado mortal a ser evitado a todo custo.

Agora, e quando o pensamento é desinteressado, ou melhor, descompromissado? E quando não há o comprometimento com a defesa de um ponto-de-vista? E quando o objetivo é apenas investigar aspectos da realidade em busca de se chegar a um entendimento mais satisfatório dela? É isto o que eu me proponho aqui no blog. Qual seria o problema de se contradizer? Nenhum.

A realidade é complexa. Dentro da idéia que fazemos dela nada está totalmente certo ou errado, porque a própria percepção humana é limitada. Quando a percepção da realidade de um indivíduo se aprimora entrando em negação com a percepção anterior, não só não há problema como é desejável se contradizer.

Dentro desta postura, por exemplo, se eu já falei que o Obama é bonito, me sinto com todo o direito de dizer que ele é feio se um dia eu chegar a esta conclusão. E certamente não vejo motivo nenhum para que o meu texto tenha menos credibilidade por esta mudança de postura. Já que a busca é por um entendimento melhor da realidade. Se uma pessoa vê que está equivocada, ela tem que se manter equivocada em nome da coerência? Claro que não.

Vejo como algo lindo uma contradição honesta. Quando a pessoa pensa e, na melhor das boas intenções, … se contradiz. Nenhuma afirmação deve ter o peso de um compromisso quando seu autor não lhe dá mais valor. Ele tem que abandoná-la. Ainda mais quando ele já possui uma outra afirmação.

Só o imbecil não se contradiz.

Especulações sobre a nova ordem política internacional

Posted in Uncategorized on Agosto 4, 2008 by fcaneves

A ordem política internacional que se formou depois da segunda guerra mundial acabou. A China, que foi um país relativamente coadjuvante no século 20, está se tornando o ator mais importante das relações internacionais do século 21.

Pensemos na Rússia em relação a China. As economias dos dois países vizinhos são incrivelmente complementares. A Rússia tem os recursos naturais de que a China tanto precisa: petróleo, gás natural, minério de ferro, e muito mais. A Rússia também possui o que a China mais cobiça: um complexo industrial militar com tecnologia — quase — de ponta.

A China dentro de 30 anos se tornará a maior economia do mundo mas sabe que só pode se tornar potência de fato se for forte militarmente. Ela já é e vai ficar ainda mais com a Rússia ao lado.

Vejo como mais do que certa a formação de uma aliança econômica, política e militar sino-russa.

Obviamente a Rússia também tem muito a ganhar com uma parceria com a China.

A expansão natural da área de influência da aliança sino-russa seria a região, muito estratégica, da Pérsia. O Iran já é um aliado da Rússia, mas o Iraque é carta fora do baralho. Por quê?

Pensemos na posição norte-americana. Vou fazer uma provocação: imaginem que os ataques de 11 de setembro não foram executados por quem pensamos que foi.

O ataque dá o álibi perfeito para o governo Bush, unilateralmente, invadir o Iraque. O mundo se revolta, mas bem ou mal o objetivo é alcançado: a instalação de uma base militar ofensiva na porta do irã. Isto é de suma importância para os EUA nesta nova ordem. A base no Iraque impede que o bloco sino-russo se expanda.

Aí vem o Obama, que é um tsunami na imagem internacional negativa dos EUA criada pelo Bush. Com os seus discursos bem escritos, com o seu carisma, com toda a simbologia embutida nele, o Obama está fazendo o mundo se reapaixonar pelos EUA.

Em certo sentido, o que acontece é perfeito para a estratégia norte-americana: O surgimento de um governo conciliador depois de um governo beligerante que se instalou militarmente no Iraque.

Num tema tão complexo e fascinante, muito mais pode ser pensado: Como fica a Europa? E a América Latina? E a política de desvalorização do dólar? A China pode quebrar os EUA se quiser? Tudo isso fica para outro post…

Noite diferente

Posted in Uncategorized on Julho 28, 2008 by fcaneves

A vida era sem graça. Ele andava pelo meio da rua. Já era madrugada mas ele estava descansado. Ele andava sem cansar. Muitos quilômetros.

Trabalhou. Não bebeu. Não fez nada durante o dia. E durante a noite. Nada de importante. Nada do que interessa.

Mais ou menos de seis em seis meses, quando o tédio acumulava demais, ele cismava de sair andando.

Sem destino pela cidade grande. Sempre acabava bem a caminhada. Bom, sempre acabava. Não poderia ser de todo mal acabar em casa — ele nunca esperou nada de diferente. Era bom porque nunca acabou no hospital, nunca na polícia, nunca no cemitério.

Assim ele pensava …

Já passa de duas horas. Ele já não sabe há quanto tempo anda.

Ele cruza com uma menina da noite. Sorridente. Solitária como ele, mas alegre. Alegre !

“Oi menino, vem cá. Qual é o seu nome?”

Nunca chamaram ele de menino.

Ela fala novamente, “Vamos ficar juntos hoje, eu moro aqui perto.”

“Eu não sou quem você imagina. Eu não tenho dinheiro.”

Ele pensava que com este tipo de gente é só falar que não tem dinheiro que tudo morre na hora.

Ela disse, ” eu também não sou quem você imagina, vem cá.”

Chegaram na casa dela. O que aconteceu lá, ninguém sabe ao certo, só os dois. O que se sabe é que ele só saiu de lá 10 horas depois. De maca, sem andar, na ambulância.

No hospital, o médico com vontade de rir disse: “Rapaz, o que você andou fazendo? E por quanto tempo ?! O que você tem é … cãibra no saco !”

Homenagem ao Coringa

Posted in Uncategorized on Julho 23, 2008 by fcaneves

O Coringa de quem vou falar não é o do novo Batman, filme que eu ainda não assisti. Nada contra, gosto dos filmes de ação de Hollywood. Considero o Batman um dos super-heróis mais interessantes. O mais sábio, o mais discreto de todos.

Para quem acredita em OVNIs e teorias da conspiração, existe a lenda urbana que diz que o Batman foi deliberadamente criado para ser um super-herói gay.

´Bat´ em inglês além de ´morcego´ significa ´taco´, ´bastão´. No popular também é gíria para a genitália masculina. O Homem Bastão. Ele vive numa caverna com o Robin — pintarroxo, um passarinho — e com o mordomo, que teria ciúmes do relacionamento dos dois. Os bandidos seriam heterosexuais tresloucados. Para sair do crime, a Mulher-gato já pediu o Batman em casamento. A resposta dele foi “me peça tudo menos isto.”

É muito engraçado pensar nisso tudo. Mas francamente eu não acredito. É só uma lenda.

Mas eu quero falar do Coringa original. De todas as cartas do baralho, o Coringa é a que eu mais gosto. Ele não pertence a nenhum naipe. Ele não tem a hierarquia definida das outras cartas. Ele não é o Rei, que vale mais que a Rainha — na vida real, não seria o contrário? –, ele não é um gênio, um Ás. O Coringa é o vagabundo, é o bobo da corte, é o artista.

E é a carta mais importante de todo o baralho. Por não ter naipe, ele não discrimina. Por não ligar para hierarquia, ele é o único que se mistura com todas as cartas. O Coringa é quem se junta aos desacreditados e os transforma em vencedores.

O coringa é quem olha para além das convenções.

Numa vida, o objetivo de se tornar um, como diria Bob Dylan, Jokerman, não seria interessante?

O Coringa me lembra como é pouco inteligente a tendência do ser humano em se definir por categorias estanques que anulam umas as outras. Tipo eu sou de direita ou eu sou de esquerda. Como se uma posição invalidasse completamente a outra, como se em cada ponto-de-vista não houvesse uma parcela de verdadeiro e falso.

A figura do Coringa também mostra o ridículo que é uma pessoa pensar por rótulos ou convensões ou preconceitos, tipo, eu sou brasileiro então não gosto de argentino, ou, eu sou hétero então eu detesto os gays, enfim …

Viva o Coringa.

The salt of the earth

Posted in Uncategorized on Julho 19, 2008 by fcaneves

A classe média dos Estados Unidos está sob um estresse imenso. E está diminuindo muito de tamanho. O pequeno produtor rural perdeu espaço para a grande empresa agrícola. O pequeno comerciante perdeu lugar para a grande cadeia varejista. O operário perdeu lugar para operários que ganham menos em outros lugares do mundo.  Até profissionais altamente qualificados, dependendo do ramo, estão perdendo empregos para seus similares em países emergentes. Mesmo com a desvalorização do dólar esta última tendência não acaba.

Do final da Segunda Guerra até bem recentemente a imensa classe média americana era de dar inveja. Consequência de uma conjuntura histórica única, ela tinha um padrão de vida altamente confortável com um poder de consumo fabuloso. Nesta época, o sonho do novo rico brasileiro era poder desfrutar do padrão de consumo do blue collar americano.

Nada voltará a ser como era antes. Mesmo que a classe média de lá reapareça com força, será outra, com outros empregos, com outra educação, será um novo grupo social.

Hoje em dia, o cinturão de indústrias pesadas que vai do centro-norte ao nordeste dos EUA é chamado de Rust Belt. Um economista amigo me disse: “Os EUA vão ficar mais como o mundo e o mundo vai ficar mais como os EUA”. Ele se referia à diferença de renda entre ricos e pobres que vai aumentar nos EUA e diminuir no resto do mundo. Eu concordo integralmente.

Eu tive uma convivência autêntica com alguns remanescentes da antiga classe média americana. Fiz uma visita a um autódromo. Não é dos mais famosos, mas tem Nascar uma vez por ano. Fiz um passeio gratuito guiado por uma senhora já nos 70. No grupo além de mim e da guia, um casal típico de classe média. Ele, bombeiro. Todos gente simples, gente boa.

O bombeiro sem se identificar perguntava seguidamente como era o sistema de combate a incêndio do lugar.

A pista oval grande estava com o sinal vermelho aceso. O bombeiro falou, “que se dane, vamos entrar!”. a guia hesitou e falou, “eu vou perder o emprego”. Não entramos.

Paramos em frente a placas de bronze de algumas lendas que morreram. Todos olharam com reverência. Eu não conhecia uma.

Quando subimos num dos camarotes da pista principal, o bombeiro se empolgou. Disse que já entrou num daqueles em Indianápolis, e que assaltou a geladeira local com os amigos. Eles beberam todas as cervejas e fizeram uma bagunça. Foi uma experiencia memorável para ele.

A mulher do bombeiro deu uma esnobada dizendo que foi a Daytona, e que aquilo ali não a impressionava. Discutiram sério.

A guia nos diz: “Este camarote custa 400 mil dólares para a corrida de Nascar.” Vem a pergunta, genial: “Com o ingresso incluído ?!”

Fomos informados que o estacionamento perto dos camarotes era pedregoso mas foi asfaltado para não estragar o salto de quem sai das limosines. Pensei: “será que nos anos 50 o pessoal dos camarotes andava de limosine?”. Pensei: “será que um grupo de bombeiros poderia alugar um camarote naquela época?”. Acho que talvez sim. Hoje, impossível.

A pista de dragster é liberada toda sexta à noite para quem quiser disputar pegas, “uma boa maneira de evitar arruaça”, disse com simpatia a velhinha.

Muito interessante, descobri que no estacionamento do mini-oval cabem 700 trailers e não sei quantos mil carros, e que em quase todo fim de semana tem evento. “O cachorro quente e a cerveja custam um dólar, mas você pode trazer a sua comida e bebida”. Costuma encher.

Surpreso, pensei: “Ainda bem.” O mundo não gira tão rápido assim.