The salt of the earth

A classe média dos Estados Unidos está sob um estresse imenso. E está diminuindo muito de tamanho. O pequeno produtor rural perdeu espaço para a grande empresa agrícola. O pequeno comerciante perdeu lugar para a grande cadeia varejista. O operário perdeu lugar para operários que ganham menos em outros lugares do mundo.  Até profissionais altamente qualificados, dependendo do ramo, estão perdendo empregos para seus similares em países emergentes. Mesmo com a desvalorização do dólar esta última tendência não acaba.

Do final da Segunda Guerra até bem recentemente a imensa classe média americana era de dar inveja. Consequência de uma conjuntura histórica única, ela tinha um padrão de vida altamente confortável com um poder de consumo fabuloso. Nesta época, o sonho do novo rico brasileiro era poder desfrutar do padrão de consumo do blue collar americano.

Nada voltará a ser como era antes. Mesmo que a classe média de lá reapareça com força, será outra, com outros empregos, com outra educação, será um novo grupo social.

Hoje em dia, o cinturão de indústrias pesadas que vai do centro-norte ao nordeste dos EUA é chamado de Rust Belt. Um economista amigo me disse: “Os EUA vão ficar mais como o mundo e o mundo vai ficar mais como os EUA”. Ele se referia à diferença de renda entre ricos e pobres que vai aumentar nos EUA e diminuir no resto do mundo. Eu concordo integralmente.

Eu tive uma convivência autêntica com alguns remanescentes da antiga classe média americana. Fiz uma visita a um autódromo. Não é dos mais famosos, mas tem Nascar uma vez por ano. Fiz um passeio gratuito guiado por uma senhora já nos 70. No grupo além de mim e da guia, um casal típico de classe média. Ele, bombeiro. Todos gente simples, gente boa.

O bombeiro sem se identificar perguntava seguidamente como era o sistema de combate a incêndio do lugar.

A pista oval grande estava com o sinal vermelho aceso. O bombeiro falou, “que se dane, vamos entrar!”. a guia hesitou e falou, “eu vou perder o emprego”. Não entramos.

Paramos em frente a placas de bronze de algumas lendas que morreram. Todos olharam com reverência. Eu não conhecia uma.

Quando subimos num dos camarotes da pista principal, o bombeiro se empolgou. Disse que já entrou num daqueles em Indianápolis, e que assaltou a geladeira local com os amigos. Eles beberam todas as cervejas e fizeram uma bagunça. Foi uma experiencia memorável para ele.

A mulher do bombeiro deu uma esnobada dizendo que foi a Daytona, e que aquilo ali não a impressionava. Discutiram sério.

A guia nos diz: “Este camarote custa 400 mil dólares para a corrida de Nascar.” Vem a pergunta, genial: “Com o ingresso incluído ?!”

Fomos informados que o estacionamento perto dos camarotes era pedregoso mas foi asfaltado para não estragar o salto de quem sai das limosines. Pensei: “será que nos anos 50 o pessoal dos camarotes andava de limosine?”. Pensei: “será que um grupo de bombeiros poderia alugar um camarote naquela época?”. Acho que talvez sim. Hoje, impossível.

A pista de dragster é liberada toda sexta à noite para quem quiser disputar pegas, “uma boa maneira de evitar arruaça”, disse com simpatia a velhinha.

Muito interessante, descobri que no estacionamento do mini-oval cabem 700 trailers e não sei quantos mil carros, e que em quase todo fim de semana tem evento. “O cachorro quente e a cerveja custam um dólar, mas você pode trazer a sua comida e bebida”. Costuma encher.

Surpreso, pensei: “Ainda bem.” O mundo não gira tão rápido assim.

Uma resposta to “The salt of the earth”

  1. “Os EUA vão ficar mais como o mundo e o mundo vai ficar mais como os EUA” concordo plenamente. Muito bom seu texto. Bjos. Rita.

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