Terra em Transe nos EUA

As pessoas nos EUA estão como personagens de Terra em Transe, o filme genial e delirante sobre política de Glauber Rocha. Posso estar em qualquer cidade grande daqui. Los Angeles, Nova York, agora estou em Salt Lake City. Percebo que muda a cidade, mas o espírito das pessoas não muda. Aparentemente está tudo quase normal, mas não está. Quando começo a conversar, e, principalmente, a ouvir as pessoas, percebo que há algo de estranho no ar.

É verdade que estou convivendo mais em ambientes universitários, mas nas ruas eu percebo a mesma coisa.

O americano médio está ficando mais pobre. Sou assediado todo o dia por pessoas que obviamente nunca foram pobres me pedindo esmola. Pessoas fortes, algumas velhas, algumas ex-soldados. Procuro conversar com todas porque eu sou curioso.

Converso com uma senhora num ônibus que me diz: “se você ficar doente você está frito aqui, você vai à falência. Eu não tenho mais carro”.

Andando de metrô, ouço jovens discutindo sobre a atitude de um amigo que acha que o melhor é beber como se não houvesse amanhã, porque a economia está screwed. Traduzindo, fodida. Na mesma viajem ouço outros dois discutindo se é melhor servir no Iraque ou no Afeganistão. Um diz que é mais seguro servir no Iraque, mas que o moralmente correto é ir para o Afeganistão.

Nos meios universitários fala-se muito de política. Política. Estamos em véspera de eleição.

Ouço uma discussão com uma mulher, professora, que vai votar no McCain, espumando por causa da posição do Obama na questão do aborto: “Você sabe que o Obama é a favor do Aborto em caso de nascimento parcial da criança ?” (Aborto em gravidez avançada, quando o feto já está formado). Um interlocutor exaltado diz que é o velho truque republicano de desviar o foco do debate de questões pragmáticas para questões morais. Um outro responde à professora: “Você quer ganhar mais dinheiro? Então vota no Obama”. O “debate” descamba para questões fiscais. Mas aí o teatro político de ambos os candidatos é tão grande que todos concordam que não há como defender ou atacar um ou outro.

A TV acusa sensacionalisticamente o Allan Greenspan como um dos culpados pela crise financeira. Traduzindo, o “Alã Espalha-Verdinha”, ex presidente do Federal Reserve. Uma piada pronta.  Tudo muito violento, tudo muito agressivo.

O mais surpreendente – e que me lembra o Terra em Transe – é que nas Universidades as pessoas inteligentes, e são muitas pessoas inteligentes, entendem cada vez mais e falam cada vez mais abertamente de como é o sistema monetário americano. Falam com um certo desconforto de como o Federal Reserve imprime dinheiro metaforicamente. E de como o dinheiro é criado contra uma dívida que depois tem que ser paga com juros. E de como isso enfraquece o país. Falam de como é o sistema monetário fracionário em vigor, em que um banco pode emprestar 90% de dinheiro a mais do que possui. Do nada. E de como isso endivida o cidadão americano, que tem de trabalhar cada vez mais a troco de cada vez menos, e de uma qualidade de vida cada vez menor.

O consenso é que tudo isso é insustentável e levou à crise financeira.

Os mais contundentes dizem que o Federal Reserve nada mais é que um cartel de banqueiros. Banqueiros que são as eminências pardas por de trás do poder. Pessoas que têm mais majestade que o próprio Rei – o presidente – seja ele quem for, sempre.

Numa conversa entre economistas, uma pessoa me dá um tapa nas costas e me diz: “a luta de classes existe meu filho, de que lado você está?”

Eu já vi isso num filme.

Mas quero terminar dizendo que os EUA são um país saudável e modelo para o Brasil. Porque os EUA possuem uma qualidade que nenhum outro país possui em um grau tão elevado: a capacidade de autocrítica.

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