O bem e o mal e a moralidade humana

O bem e o mal existem dentro de cada um de nós. Eles não estão em nós em estado absoluto, mas todos nós somos um pouco dos dois. Dependendo da circunstância, escolhemos entre um e outro. O que diferencia o homem dos outros animais e o que lhe dá a característica de ser bom ou mau é um senso de moralidade que lhe é inerente. Ao contrário, por exemplo, do cachorro ou do cavalo, o homem a princípio sempre sabe quando está fazendo uma ação boa ou ruim.

Imaginemos uma pessoa andando pela rua, se ela desse uma bofetada num completo desconhecido, na opinião de todas as outras pessoas e inclusive na dela mesma, ela teria feito uma maldade. Ao contrário, se um cavalo, na banalidade de seu cotidiano, desse um coice numa pessoa, seria algo a se lamentar, mas não se poderia chamar o cavado de mau.

A moralidade é universal na humanidade. Ela não muda de cultura para cultura. Qualquer homem, de qualquer cultura, sabe igual ao outro o que é certo ou errado e o que é uma ação boa ou má. Um ato de crueldade qualquer seria considerado maldade em qualquer lugar do mundo. As leis podem até mudar de lugar para lugar, mas uma base de moralidade é comum a todos os homens. A aceitação deste princípio legitima, por exemplo, a prisão de um estrangeiro fora de seu país, mesmo que a sua ação imoral não fosse punida em seu país de origem.

O fato dos homens terem uma moralidade em comum não os iguala em suas ações. Significa apenas que eles têm um ponto de partida em comum para, a partir dele, fazerem as suas escolhas morais. Em determinada circunstância, alguns escolhem ser bons, outros escolhem ser maus. Em outras circunstâncias, as escolhas são feitas novamente. As escolhas nem sempre são livres: Pessoas podem agir de determinada forma porque são tementes a Deus ou porque temem represálias humanas, ou as escolhas podem ser limitadas por diversas contingências da vida.

As escolhas entre ser bom e ser mau são feitas quando interagimos com outras pessoas. Em todas as esferas da vida, interagimos com outras pessoas. Dessas interações nascem relações de poder, pode ser no âmbito familiar, do trabalho, ou em qualquer outro.

As pessoas para se manter no poder tendem a agir maquiavelicamente. Maquiavel em sua obra-prima O Príncipe diz que o objetivo principal de uma pessoa em posição de poder deve ser … se manter no poder. Ele lembra que um Príncipe deve agir de forma pragmática para se manter no poder, ou seja, sem pensar em imperativos morais. As ações devem ser sempre dissimuladas, às vezes cruéis, às vezes covardes, às vezes generosas quando se quer algo em troca. Não importa o valor moral delas, é irrelevante. Tudo deve ser feito para o Príncipe se manter no poder.

Quem opta por agir maquiavelicamente faz uma escolha legítima. Afinal, é melhor mandar que obedecer, e só manda quem tem poder. Obviamente, também existem desvantagens em agir desta forma, muitas, afinal, o senso de moralidade existe até no Príncipe maquiavélico, mas o ponto em que eu quero chegar é outro. Se Maquiavel fosse seguido por toda a humanidade, ela se auto destruiria.

A prescrição maquiavélica não pode ser adotada como uma máxima universal. Desta forma, outra forma de agir no relacionamento com o outro é agir de acordo com a regra de ouro moral, o imperativo categórico kantiano: aja de tal forma que a sua ação possa se tornar uma máxima universal. Outra maneira de dizer: trate os outros da mesma maneira que você e o resto da humanidade gostariam de ser tratados.

Esta também é uma forma de agir legítima, quem já fez uma viagem longa num avião lotado sabe que se as pessoas não pensarem nessa máxima universal a viagem não termina bem. O que impede essa máxima de ser mais adotada é o fato dela ser essencialmente desinteressada, você age assim porque você sabe que é correto, não porque você está visando um ganho próprio. Além do mais, ela requer uma consideração aos interesses alheios e até mesmo uma cessão de poder a outras pessoas, coisas difíceis de se fazer.

Este é realmente um tema muito interessante e complexo.

Uma resposta to “O bem e o mal e a moralidade humana”

  1. Flavio,
    seu texto me remeteu a um dos pontos que conversamos ontem.
    Talvez falte na personagem em questão a percepção correta entre o bem e o mal.
    No caso dela, parece que a capacidade de perceber o mal não existe, e com a capacidade de transformar o mal cometido no bem para si mesmo, cria-se um alibi para continuar agindo de maneira equivocada.

    Gostei bastante da forma como voce escreveu.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: